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Showbizz _ Sinfonia da reconstrução # outubro 2000

SINFONIA DA RECONSTRUÇÃO

Livre das drogas pesadas e da paranóia que envolvia o Verve, o papai Richard Ashcroft assume que quer mais é curtir o filhão e cantar o amor

Dez longos anos de brigas, separações, delírios, drogas pesadíssimas e zilhões de incertezas podem transformar o universo de qualquer pessoa em um verdadeiro inferno. Se você não conhecesse Richard Ashcroft, vocalista e principal compositor de uma das mais marcantes bandas que nasceram na Inglaterra pós-Stone Roses, todos esses traumas, nesse caso, não teriam a mínima importância.

O Verve nasceu no ano de 1990, redesenhou o cenário britpop com o ultrapsicodélico A NORTHERN SOUL, fez história com o single de HISTORY - ambos de 1995 - e fechou esse ciclo com a obra-prima URBAN HYMNS, dois anos mais tarde. "Nós sabíamos que estávamos fazendo um som que a maioria da nossa geração tinha esquecido", revelou Richard para a revista Mojo. "Na época de A NORTHERN SOUL, percebi que queria escrever grandes canções como os Beach Boys, Burt Bacharach e os Byrds".

Foi nesse hiato de inspiração que ele também começou a sentir o seu mundo desmoronar. O guitarrista e seu principal parceiro, Nick McCabe, abandonou o time logo após o lançamento do álbum, alegando problemas pessoais. Não seria a primeira, muito menos a última vez que o pancada iria desafinar com o resto do grupo. Em 1998, depois de uma turnê americana regada a drogas, excessos e discussões, a cicatriz deixada pelo abandono de McCabe seria muito mais sentida.

Sofrendo do mesmo mal que resultou no suicídio de Kurt Cobain e cansado do descaso de seu ex-companheiro, Richard decidiu com os outros sobreviventes dar um fim ao que tinha restado do Verve. "Tivemos tantos problemas na nossa última turnê... Eu tinha de desistir, sabia que isso não era mais legal para minha saúde mental". Por ter mais uma vez escapado incólume, Ashcroft necessitava de alguns momentos de reflexão. Meses antes do anúncio do fim do Verve (28 de abril de 1999), o rapaz se trancou em casa e iniciou o processo de composição de suas novas canções.

O mês de julho deste ano marcou o resultado do semi-isolamento e o início de uma estação alto-astral: ALONE WITH EVERYBODY (já lançado no Brasil), seu primeiro manifesto-solo, aportou nas lojas. Como o próprio título deixa bem claro, Richard está sozinho ou, talvez, nem tanto. O magricela, que completa 29 anos ainda este ano, casou-se em 1995 com a bela Kate Radley, da banda inglesa Spiritualized e teve o primeiro filho, Sonny, em março passado. "Minha mulher e meu filho são a minha estabilidade agora", falou à revista Q.

Poder de escolher

Sim, ele teve ótimos momentos nos últimos dez anos. URBAN HYMNS vendeu mais de 7 milhões de cópias em todo o mundo e, em sua fase de maior inspiração, o Verve arrastava cerca de 80 mil fanáticos para seus shows. Mas agora, com total autonomia para fazer o que bem entender, Richard tem o poder de escolher quem estará ou não ao seu lado.

Essa gama de emoções emergiu em seu novo trabalho. ALONE WITH EVERYBODY (título tirado de um conto de Charles Bukowski) trata dos amantes, das coisas mais simplórias e, principalmente, do seu relacionamento com a esposa Kate Radley. Como ele próprio define, "é (um álbum) mais europeu, é Serge Gainsburg, Scott Walker, Ennio Morricone".

"Qualquer coisa pode influenciar minha música. Estava passeando com meu filho por Nova York outro dia e meu coração estava agitadíssimo. Cocaína e putas em Los Angeles nunca vão ser mais importantes. Isto sim, é uma nova emoção para mim". Canções como A SONG FOR THE LOVERS, C'MON PEOPLE e NEW YORK já tinham sido compostas no fértil período de URBAN HYMNS, quando este quase foi lançado como sua primeira investida-solo. Dessa época, ele manteve os velhos conhecidos, o produtor Chris Potter e o baterista Peter Salisbury.

Fracasso de crítica

Tudo levava a crer que o paraíso estava próximo, certo? Errado. Diferentemente dos trabalhos do Verve, que sempre traziam o selo com o termo "unanimidade" estampado neles, a primeira viagem solitária do agora careta Ashcroft (que ainda nem chegou aos 30!) não encontrou uma receptividade tão positiva. Grande parte da crítica não foi nada boazinha, descendo a lenha em suas novas composições. Se a maior queixa é que, além da produção exagerada, elas acabaram refletindo o estado atual do artista - uma pessoa mais positiva e centrada que acabou perdendo muito do lado obscuro e psicodélico, antes sua marca registrada -, Richard se defendeu assim: "Somente os jornalistas britânicos poderiam pensar que o nascimento do meu filho traria alguma característica negativa para a minha música. Esse conceito de que estar casado e ser pai significa a morte da criatividade é típico das pessoas que querem que eu continue vivendo naquele mundo de loucura e drogas, porque elas próprias não chegaram num estágio da vida onde se vêm tendo uma companheira e sendo pais".

Onde está o resto da banda?

Nick McCabe, 29 anos (guitarrista) - Vive com sua namorada na Espanha, dedicando-se mais à música eletrônica. Não, não parou de tocar guitarra, mas trabalha também como programador. Pretende fazer um projeto com o barulhento e insano Aphex Twin.

Simon Tong, 29 anos (guitarrista e tecladista) - Vive em Londres, trabalhando em música meio "funk".

Peter Salisbury, 29 anos (baterista) - Foi o único membro a ser recrutado para tocar no álbum de Richard Ashcroft. Também está acompanhando-o na sua turnê. "Não me fale do Verve. A banda acabou!"

Simon Jones, 28 anos (baixista) - Vive em Londres com sua esposa americana, Myra, e tem um filho. Está armando um projeto com o mago das guitarras John Squire (ex-Stone Roses). 

HINOS MAIS DO QUE URBANOS
Discografia do Verve lançada no Brasil

A STORM IN HEAVEN (EMI, 1993) - Com pouco dinheiro disponível, o álbum foi todo produzido em sete semanas. Grandes jams foram gravadas e passadas para o disco como uma verdadeira forma de free jazz. O talento de Nick McCabe para criar ótimos riffs de guitarra e o vozeirão de Richard já se faziam notar. O vocalista, que define a sonoridade do disco como "soul de branco", considera-o um clássico perdido.

A NORTHERN SOUL (Virgin, 1995) - Muitos consideram este o melhor trabalho da banda. A NORTHERN SOUL teve como seu principal combustível muito ecstasy e loucura. Produzido por Owen Morris (Oasis), o resultado foi o reflexo de todos os traumas que seus componentes passavam. Sons psicodélicos e letras carregadas, com destaque para as emocionais ON YOUR OWN e HISTORY, num álbum que quase não foi lançado. 

URBAN HYMNS (Virgin, 1997) - É o Verve quase chegando à perfeição. Quase todo composto por Richard Ashcroft no período em que a banda tinha tirado o time de campo, URBAN HYMNS já deixou seu belo legado com baladas acachapantes como THE DRUGS DON'T WORK e a sinfônica BITTERSWEET SYMPHONY. Bernard Butler (Suede) e John Squire (Stone Roses) foram "testados" antes de o conturbado Nick McCabe decidir retornar a seu posto.

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