|
|
Jornal
do Brasil _ Rock sem enganação # 20 março 1998
|
ROCK SEM ENGANAÇÃO
Não há telão nem raio laser, mas sobra rock'n'roll no show do Oasis
por Silvio Essinger
Tire o telão, o laser, as bases programadas, as roupas extravagantes e o que
sobra de 90% dos shows de rock por aí? Nada, não é mesmo? Não no caso do grupo inglês Oasis, que aliás dispensa solenemente todos os itens acima citados. Atração desta sexta no Metropolitan, a banda dos irmãos Noel e Liam Gallagher vai para o lado diametralmente oposto ao de seus contemporâneos. Mesmo sob o risco de parecer ultrapassado nesses tempos pós-modernos de techno e remixes, o Oasis se importa tão-somente em manter viva a experiência de um show de rock'n'roll. O que significa muitas canções ótimas para se cantar junto, boa dose de guitarras e o supra-sumo do espírito adolescente, traduzido na postura displicente e rebelde de Liam.
Acompanhados por Paul Bonehead Arthurs, Paul Gigs McGuigan, Alan White e pelos músicos convidados Mike Rowe e Paul Stacy (teclados), os irmãos do Oasis apresentam o show de seu terceiro álbum, BE HERE NOW. É a primeira vez que a banda faz uma turnê na América Latina - o giro começou semana passada em Santiago, no Chile, com 11 mil pessoas no Estádio San Carlos de Apoquindo. O único adereço de palco é um cenário com um enorme O. O resto é música, com o repertório novo e dos discos
anteriores, DEFINITELY MAYBE e (WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?.
Com suas mãos para trás e o corpo esquálido curvado em frente ao microfone, Liam, 25 anos, pode até ser considerado o sex symbol do Oasis. Mas o dono do show é mesmo Noel, 30, guitarrista de uma escola que começa lá em John Lennon (os Beatles são referência constante no trabalho da banda), passa por Steve Jones (Sex Pistols) e Paul Weller (The Jam) para desembocar em Johnny Marr (The Smiths). Ele toca os riffs das músicas, dobra os vocais do irmão e faz o set acústico sozinho, cantando e tocando violão. A pose centralizadora de Noel, típica de irmão mais velho, já rendeu umas boas brigas entre os dois. No Chile, por exemplo, o sarcástico guitarrista só se referia a Liam como el pollo loco (o frango louco).
Não bastasse os quebra-paus entre Liam e Noel (que por mais de uma vez já fizeram os fãs tremerem pelo fim do Oasis), ainda há aqueles com terceiros - há poucas semanas, o vocalista embolachou um fã na Austrália. Escândalos, aliás, sempre acompanham os integrantes da banda - Noel é mais dado a declarações bombásticas, principalmente sobre drogas. Pose? Golpe de marketing? Ou será somente rock'n'roll? O guitarrista costuma ter sempre um deboche na ponta da língua: "Dizem que eu sou mal-educado e grosso. Mas a verdade é que eu sou um jovem encantador".
As músicas tocadas no Chile:
BE HERE NOW: rocão sem muita frescura, excelente para aquecer as turbinas.
STAND BY ME: atual hit da banda, é um quase-hino, com emocionado refrão para se cantar com todo o fôlego.
SUPERSONIC: o primeiro sucesso do Oasis, com levada hipnótica e citação beatle (um Yellow submarine na letra).
ROLL WITH IT: na linha de BE HERE NOW. Termina com um festival de microfonia e reverberações da guitarra de Noel.
D'YOU KNOW WHAT I MEAN: o mais próximo que a banda chega do heavy metal. O guitarrista castiga as caixas de som.
CIGARETTES & ALCOHOL: 40 anos de rock resumidos em uma canção. Emenda com WHOLE LOTTA LOVE, do Led Zeppelin.
DON'T GO AWAY: bela e doída canção de amor, que ganha no formato acústico a sua melhor interpretação.
LIVE FOREVER: vale pelo falsete de Noel no verso que diz: "eu e você vamos viver para sempre".
SETTING SUN/FADING IN-OUT: o guitarrista faz uma releitura indiana de sua colaboração com os Chemical Brothers e continua numa das mais chatas músicas do novo disco. Hora de buscar cerveja. Citação em clima de Beatles: "Get on the helter skelter".
DON'T LOOK BACK IN ANGER: Noel, em sua egotrip acústica, canta mais esta, outro dos hinos do Oasis. Só falta a introdução de piano do disco, roubada de IMAGINE, música de John Lennon.
WONDERWALL: canção famosa porque já tocou até em novela da Globo, só que agora chega em versão pesada. Dá para imaginar a constelação de isqueirinhos no Metropolitan.
IT'S GETTING BETTER, MAN: rock básico para sacudir o povo. Citação beatle óbvia: GETTING BETTER, de SGT. PEPPERS.
CHAMPAGNE SUPERNOVA: uma das grandes baladas da banda, estendida para Noel mostrar o que sabe na guitarra.
ACQUIESCE: lado B de compacto, na linha básica de outras músicas, aparece no bis.
I AM THE WALRUS: por fim, uma dos Beatles. O arranjo psicodélico desta canção do disco MAGICAL MISTERY TOUR, com suas frases de mellotrons e cordas, é
recriado na guitarra de Noel Gallagher.
Segundo a produção da banda, no Rio podem rolar ainda HELP, dos Beatles, em versão acústica, e TALK TONIGHT, de Paul Weller.
- DEFINITELY MAYBE: Do nada para o primeiro lugar das paradas inglesas, esta foi a trajetória feita em 1994 pelo Oasis com DEFINITELY MAYBE. As melodias na tradição dos Beatles, a energia punk dos Sex Pistols e uma celebração do estilo sexo, drogas & rock'n'roll foram a tônica de sucessos como ROCK'N'ROLL STAR, LIVE FOREVER, SUPERSONIC e CIGARETTES & ALCOHOL.
- (WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?: Disco que fez o mundo se render ao Oasis, MORNING GLORY?, de 1995, inicia a era das baladas pungentes - WONDERWALL, DON'T LOOK BACK IN ANGER e CHAMPAGNE SUPERNOVA. Apesar de rocks no velho estilo, como ROLL WITH IT e SOME MIGHT
SAY, foram elas que conquistaram para o álbum a vendagem recorde de 9 milhões de cópias.
- BE HERE NOW: Depois de dois anos de espera, o Oasis volta ao cenário com seu disco mais
audacioso, BE HERE NOW. De cara, ele surpreende pela massa sonora (algumas faixas beiram o heavy metal, outras explodem em cordas) e pela quantidade de referências aos Beatles na capa e nas letras. O melhor, porém, são as canções: STAND BY ME, DON'T GO AWAY e ALL AROUND THE WORLD.
PINGUE-PONGUE
Por que o Chile para começar a turnê latino-americana?
Noel Gallagher: A gente não escolhe onde vai tocar, isso é coisa do nosso empresário.
O que vocês pretendem fazer depois que terminar a temporada?
Noel: A gente vai tirar férias e talvez comece a escrever material para o novo disco. Estamos há cinco anos ininterruptos na estrada. A idéia é parar com os shows por uns dois anos para recuperar a energia.
Palco ou estúdio, o que é melhor?
Noel: Depende. Às vezes gosto do palco, às vezes odeio o palco.
O que inspira a sua música?
Noel: A música de pessoas mais velhas.
Há quem diga que vocês são os Beatles dos anos 90. O que acha disso?
Noel: Os Beatles são minha banda favorita de todos os tempos e estão aí influenciando gerações. Não há como escapar deles.
Você pensa numa carreira solo?
Noel: Talvez um dia, ainda não sei quando.
O que acha de ter trabalhado com nomes da música eletrônica, como os Chemical Brothers e Goldie?
Noel: É bom ouvir o que fiz com eles, porque é muito diferente do Oasis. Estou sempre pronto a colaborar com quem quer que seja.
DE MANCHESTER PARA O MUNDO, SOB AS ORDENS DE NOEL
O Oasis vem de Manchester, cidade portuária inglesa, famosa por ter gerado históricos nomes do rock, como Joy Division, New Order e The Smiths. No começo dos 90, a onda por lá eram os Stone Roses e os Inspiral Carpets, bandas que misturavam rock e dance, num movimento conhecido como Madchester. Nessa época, o jovem Noel fez um teste para ser vocalista dos Carpets, mas acabou conseguindo só a vaga de auxiliar de palco. Já Liam começava a cantar numa banda chamada Rain, com os amigos Bonehead, Gigs e o baterista Tony McCarroll. Os sonhadores irmãos eram típicos filhos da classe média baixa da cidade. Viviam com a mãe, Peggy, e mal tinham notícias do pai, Tommy, um violento alcoólatra que saiu de casa depois de um quebra-pau com Noel e com o filho mais velho, Paul. Um dia, em 1991, o guitarrista foi assistir a um show da banda de Liam. Achou-a horrível. Convidado para tocar a segunda guitarra, ele estabaleceu uma condição: que os músicos lhe obedecessem. Assim nasceram o Oasis e todas as confusões entre os dois irmãos. O que Liam tinha de encrenqueiro Noel tinha de ambicioso e arrogante. Assim, sob nova direção, a banda passou a ensaiar regularmente e fazer mais shows.
Em 1993, uma fita do Oasis caiu nas mãos de Alan McGee, dono do selo Creation, que logo viu potencial nos rapazes. Depois de ver um show do quinteto, ele profetizou: "É a banda que vai dar a virada em nossa empresa". Ao assinar o contrato com McGee, Noel, que não é bobo, exigiu por escrito que o empresário lhe desse um Rolls Royce marrom logo que o Oasis fizesse sucesso.
A promessa foi cumprida meses depois. O primeiro single da banda, SUPERSONIC, entrou direto no 31º lugar da parada inglesa, em maio de 1994. Em agosto, quando saiu o álbum DEFINITELY MAYBE, o Oasis já era sensação no país, subindo cada vez mais no ranking de vendagens. Resultado: no começo de 1995, ganhou o Brit Awards de melhor banda nova. Em abril, o baterista McCarroll, que já tinha gravado até faixas para o novo disco, saiu sendo substituído por Alan White. Em novembro, a banda lançou o esperado (WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?, que vendeu 350 mil cópias só na primeira semana. Alegando estresse, o baixista teve que tirar umas semanas de folga (o seu substituto aparece no clipe de WONDERWALL). A partir daí, o mundo começou a ser pequeno para o Oasis. Noel
realizou seu grande sonho, gravando com Paul McCartney e Paul Weller COME TOGETHER para um disco em prol das crianças da Bósnia. E em fevereiro de 1996 a banda desembarcou em Kansas City para sua primeira turnê americana - foi recebida com capa da Rolling Stone e a esperança de que novos Beatles estivessem surgindo. Acabou vendendo 3 milhões de discos por lá. Depois de um tempo em que eram mais vistos nos tablóides de escândalos que nas paradas, os músicos do Oasis lançaram o single de D'YOU KNOW WHAT I MEAN, antecipando seu terceiro álbum, BE HERE NOW, que chegou às lojas em agosto. Com este disco, saíram mês passado em sua primeira turnê latino-americana, que chega nesta sexta ao Brasil.
ESCÂNDALOS DA BANDA BRIGUENTA
Rock e escândalo sempre andaram juntos, mas no caso do Oasis... A banda não tem biografia. Tem é uma folha penal!
- No começo de 1995, numa briga de bar, Liam atirou copos e cinzeiros nos oponentes. Depois, atacou um motorista de táxi.
- Meses depois, num bar em Paris, saiu no braço com o baterista Tony McCarroll, que depois deixou a banda.
- Em setembro, numa entrevista à revista Observer, Noel perdeu as estribeiras com integrantes da banda rival Blur. "Espero que eles peguem aids e morram", disse.
- De novo Noel: falando ao semanário Melody Maker, em março de 1996, ele confessou que, antes da fama, roubava toca-fitas de carros. "É preciso entender que somos jovens de bairros pobres, que só se interessam por garotas, piadas e festas", justificou, com o cinismo habitual.
- Dois meses depois, Liam foi preso em Londres por posse de cocaína. Pagou fiança e escapou
do xilindró.
- Em janeiro do ano passado, Noel provocou furor ao dizer à BBC que tomar drogas é "tão normal quanto tomar chá". Também acusou integrantes do Parlamento de serem consumidores de heroína e cocaína.
- Em junho, o Oasis ameaçou com processos os fãs que mantinham sites na Internet com imagens e sons seus. Foi a primeira banda de rock que se conhece a tomar tão antipática atitude.
- Magoado por ter sido chamado de "o bobão da banda" por George Harrison, Liam devolveu em outubro: "Eu ainda o adoro como compositor dos Beatles, mas como pessoa George Harrison é um tremendo idiota".
- No mês passado, o comandante de um avião na rota Hong Kong - Perth (Austrália) ameaçou botar a banda para fora se ela não parasse de incomodar tripulação e passageiros.
- Dias depois, o mico definitivo: em Brisbane, na Austrália, Liam quebrou o nariz de um fã que tentava fotografá-lo. Mais uma vez, pagou fiança para se safar.
[foto da matéria]
|
|